Nilson Lage, mestre de uma geração de jornalistas, morre aos 85 anos

 


 Um observador crítico da realidade brasileira, morreu na noite desta segunda-feira o jornalista e acadêmico Nilson Lage, aos 85 anos, após dois anos de tratamento contra um câncer de pulmão.

Profissional com mais de 50 anos de atuação, Lage passou pelos principais veículos de imprensa do Brasil, mas foi na formação de uma geração de jornalistas, como professor da Escola de Comunicação da UFRJ e da UFSC, que deixou sua marca.

Nos últimos tempos, já aposentado, dedicava-se a comentar e escrever sobre a atualidade, sempre em tom questionador, traço marcante da sua personalidade.

Chegou a estudar Medicina, mas a vida foi dedicada às Letras e ao jornalismo. Estudou português-russo e era doutor em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de mestre em Comunicação.

Antes de ingressar na carreira acadêmica, passou pelas redações de O GLOBO, Jornal do Brasil, Última Hora, Revista Manchete e Televisão Educativa do Rio de Janeiro.

— Conheci o Nilson aos 23 anos em 1973 na UFRJ, onde eu estudava hebraico e ele, russo. Como sempre, era um homem brilhante, à frente do seu tempo. Amava sua profissão e era profundamente preocupado com seu país e seu povo. Manteve-se fiel a isso por toda sua vida. Entre os encontros e desencontros que atravessaram nossos caminhos, a marca desta relação é um sentimento inexplicável de amor e carinho por todos esses anos — declarou Nildes, a mulher dele nos últimos 30 anos.

Autor de diversas obras sobre jornalismo, entre elas “Ideologia e Técnica da Notícia” (1979) e “Teoria e Técnica do Texto Jornalístico” (2005), nos últimos anos, Lage se dedicou ao seu site pessoal “Observador do Mundo”, onde publicava artigos, memórias da vida profissional e textos de divulgação de História do Brasil.

Nem mesmo nas últimas semanas, quando a doença já avançava, Lage deixou de publicar nas redes sociais. Em suas últimas postagens, no mês passado, estava pessimista com o país.

"A crise tem raízes mais profundas: pode um país do tamanho do Brasil, com tal proporção de habitantes de cidades e tantas delas de perfil próspero, viver da exportação de meia dúzia de minérios brutos e produtos agrícolas in natura? Há como distribuir a riqueza se não se distribui o trabalho?", escreveu.

A apresentadora Fátima Bernardes prestou homenagem ao professor em seu programa na TV Globo na manhã desta terça-feira, lembrando que foi ele o responsável por ela ter continuado na faculdade. Na época, estava desestimulada com a profissão:

“Foi ele que me fez continuar na faculdade. Eu pensava em desistir. Ele era considerado um professor muito exigente e uma nota 8 dele, na época uma nota muito boa, fez com que eu, que estava muito desestimulada, ficasse na faculdade”

Ela contou que teve oportunidade de dizer a ele o quanto que foi “importantíssimo” a influência dele na carreira:

“Ele me deu uma chamada. Disse que o assunto que eu escolhi estava muito ruim, mas o texto estava bom. Isso foi fundamental para que er permanecesse”.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), os Sindicatos dos Jornalistas de Santa Catarina e do Município do Rio de Janeiro se manifestaram em nota conjunta:

“A Fenaj e seus sindicatos reafirmam seu compromisso de honrar o legado do jornalista e professor Nilson Lage mantendo-se na luta e, neste momento de dor, solidarizam-se com os parentes, amigos, colegas de profissão, alunos e ex-alunos. Sua firmeza de caráter, compromisso com a democracia, sua grandeza e sua obra permanecerão vivos em nossas memórias.”

A filha Janaina Lage, jornalista do GLOBO, lembra que ao longo da vida profissional encontrou muitos ex-alunos do pai, numa convivência marcante. Nilson Lage lecionou por 14 anos na UFRJ e por outros 14 anos na UFSC.

— Não é isso que a gente espera da vida, deixar uma marca nas pessoas? Isso meu pai deixou.

Leitor voraz das notícias, incumbiu as filhas de lerem todos os jornais.

— Ele sempre tinha alguma avaliação, comentário ou questionamento. Questionava tudo o tempo todo — lembra Janaina.

Para a filha caçula, a matemática Clara Lage, "tê-lo como pai foi uma grande inspiração".

— Meu pai me abriu caminhos para perguntas que sem ele eu talvez jamais faria e me deu ferramentas para respostas que vou buscar por toda minha vida. Sua luta política e seus valores de vida são hoje também parte de mim.

A reitoria da UFRJ divulgou nota de pesar pela morte do professor, lembrando que ele representou a Escola de Comunicação da universidade e a Fenaj na comissão especial que, reunida de 1982 a 1983, instituiu o currículo mínimo dos cursos de Comunicação Social. Além disso, foi membro da Comissão de Especialistas em Comunicação Social da Secretaria de Educação Superior (Sesu/MEC), em 1999, e das comissões de verificação dos cursos de Jornalismo, de 1999 a 2002:

“O jornalismo e a ciência brasileira perdem um pouco de si com a partida de Nilson Lage. Lamentamos profundamente e transmitimos força aos familiares e amigos neste momento de intensa consternação.

O jornalista e escritor Mario Magalhães também lamentou a morte de Nilson:

“Um dos mais importantes professores de jornalismo que o Brasil conheceu. Tive a imensa sorte de ter sido seu aluno na Escola de Comunicação da UFRJ. Além de lições inesquecíveis sobre a nossa profissão, Nilson deixa o exemplo de jornalista e homem digno”, escreveu no Twitter.

O professor e jornalista deixa a mulher, Nildes Macêdo Lage, e as filhas Angela Lage, Cláudia Cresciulo, Janaina Lage e Clara Lage. Além de três netas: Sílvia, Paula e Flávia. A pedido do professor, não haverá velório. A cremação será nesta terça-feira, às 15h, no Crematório Catarinense.

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