Irã e potências mundiais chegam a acordo nuclear


O Irã e as grandes potências conseguiram concluir nesta terça-feira (14) um acordo histórico em Viena sobre o programa nuclear iraniano, informaram agências de notícias internacionais e negociadores envolvidos nas conversas.
Segundo os Estados Unidos, o acordo vai prevenir de maneira eficiente que o Irã obtenha uma arma nuclear e garantirá que o programa nuclear do país seja usado apenas para fins pacíficos.
Os chefes da diplomacia do Irã, do grupo 5+1 (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Rússia, China e Alemanha) e da União Europeia negociavam há 17 dias no palácio de Coburg da capital austríaca.
Ministro das Relações Exteriores iraniano, Mohammed Javad Zarif, fala com jornalistas antes da reunião que chegou a acordo (Foto: AP Photo/Ronald Zak)Ministro das Relações Exteriores iraniano, Mohammed Javad Zarif, fala com jornalistas antes da reunião que chegou a acordo (Foto: AP Photo/Ronald Zak)
"O acordo está concluído", afirmou uma fonte diplomática, ao fim de 21 meses de negociações e uma etapa final de 17 dias de intensas discussões em Viena para encerrar um tema que abala as relações internacionais há 12 anos.
"Graças a Deus, as negociações nucleares terminaram com sucesso", escreveu Hamid Baeidinejad, um dos principais negociadores iranianos, no Twitter. "Se Deus quiser, os efeitos deste acordo serão benéficos e duradouros para o povo iraniano", completou.
"Hoje poderia ter sido o final da esperança, mas estamos perante um novo capítulo", disse o chanceler iraniano, Mohammed Javad Zarif, sobre o fim das negociações na capital austríaca para se fechar o histórico acordo. "Acho que esse é um momento histórico. Estamos fechando um acordo que não é perfeito, mas sim o que pudemos conseguir. É uma conquista importante", destacou.
A chefe da política externa da União Europeia (UE), Federica Mogherini, que coordenou o grupo internacional nas negociações, disse que o acordo "representa um sinal de esperança para o mundo".
"Acho que todos sabemos que a decisão que vamos tomar está relacionada com o programa de armas (do Irã), mas é muito, muito mais do que isso. Ela abre um novo capítulo nas relações internacionais", disse a diplomata italiana.
Investigação
Ao mesmo tempo, o Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) assinaram um "mapa do caminho" que autoriza uma investigação sobre o passado do programa nuclear de Teerã, em função da suspeita de uma possível dimensão militar, anunciou o diretor geral do órgão da ONU.
"Acabo de assinar o mapa do caminho entre a República Islâmica do Irã e AIEA para o esclarecimento das questões em suspenso do passado e do presente relativas ao programa nuclear iraniano", declarou Yukiya Amano à imprensa, antes de celebrar o "avanço significativo" que o acordo representa.
Acordo
O objetivo do acordo é assegurar que o programa nuclear iraniano tenha um caráter não militar, em troca da retirada das sanções internacionais que asfixiam a economia do país. O texto, que autoriza Teerã a prosseguir com o programa nuclear civil, abre o caminho para uma normalização da presença do Irã no cenário internacional.
O documento final entre Teerã e as grandes potências, de cerca de 100 páginas, prevê a eliminação de todas as sanções internacionais contra o Irã, que também sairá da lista de países sancionados pela Organização das Nações Unidas (ONU), afirma a Isna.
Os detalhes do acordo ainda não foram divulgados, mas as agências de notícias informam que o Irã vai permitir o acesso de inspetores internacionais às agências nucleares, em troca da suspensão das sanções; o país vai continuar submetido a um embargo no comércio de armas por pelo menos cinco anos; e que as sanções voltam a entrar em vigor caso alguma parte do acordo não seja cumprida pelos iranianos. A aplicação das medidas do pacto será dividida em três etapas: uma preliminar, uma operacional e outra executiva.
Segundo a agência estatal iraniana IRNA, “bilhões de dólares em ativos iranianos congelados serão liberados, as proibições referentes à aviação do país serão canceladas após três décadas”, assim como as restrições contra o Banco Central iraniano, o Exército do país e outras empresas estatais.
O Irã aceitou conceder um acesso limitado a locais militares, com base no protocolo adicional que permite um controle reforçado do programa nuclear de Teerã, afirmou uma fonte iraniana.
"Nossos locais militares não estão abertos aos visitantes porque cada país tem o direito de proteger seus segredos. O Irã não é uma exceção. No entanto, o Irã vai aplicar e protocolo adicional (ao Tratado de Não Proliferação Nuclear) e com esta base dará um acesso programado a certas instalações militares definidas no texto", declarou a fonte.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores russo, o Irã será autorizado a conduzir pesquisa e desenvolvimento com uranio para centrífugas avançadas durante os primeiros 10 anos do acordo, de uma maneira que não acumule urânio enriquecido.
As sanções poderão ser levantadas progressivamente a partir do início de 2016, mas o acordo também prevê seu restabelecimento em caso de violação dos compromissos por parte da República Islâmica, informou um diplomata francês, segundo a France Presse.
O levantamento das sanções deverá esperar uma reunião da AIEA prevista para o meio de dezembro, na qual será confirmado que o Irã respeita seus compromissos, precisou a fonte.
Negociação
Na segunda-feira à meia-noite (hora local), a atividade diplomática era intensa. Os ministros das grandes potências participaram de uma reunião plenária, logo depois de uma conversa entre o secretário de Estado americano, John Kerry, e o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov. No momento ainda existiam "pontos de divergência", segundo o porta-voz do presidente americano Barack Obama.
Há dois dias, os participantes afirmavam que o texto estava praticamente concluído, mas que ainda era necessário adotar "decisões políticas" para resolver dois ou três pontos de desacordo. Enquanto americanos e iranianos se mostravam dispostos a prosseguir com as negociações pelo tempo necessário, Pequim pediu na segunda-feira o fim das tergiversações.
"Não há acordo perfeito", lembrou o chanceler chinês, Wang Yi, acrescentando que "as condições já estão dadas para alcançar um bom acordo". "Não pode e não devem acontecer novos atrasos", completou.
Comemoração
Como um sinal de que o fim das discussões estaria próximo, o ministro iraniano do Interior pediu que as autoridades locais preparem um cenário de comemoração nas ruas. A população, que elegeu o presidente Hassan Rohani em 2013 com a promessa de conseguir a suspensão das sanções, espera uma melhora de suas condições de vida, caso um acordo seja assinado.
O presidente iraniano, Hassan Rohani, disse em sua conta no Twitter que o acordo abre "novos horizontes". Agora que "esta crise, que era desnecessária", ficou resolvida, o Irã e as grandes potências podem "concentrar-se nos desafios compartilhados", escreveu, em referência à luta contra o grupo jihadista Estado Islâmico (EI), que ataca alvos xiitas e ocidentais a partir de suas bases na Síria e no Iraque.
Críticas
Mesmo sem anúncio oficial sobre o acordo, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse que o acordo nuclear do Irã é um “erro de proporções históricas”.
"O Irã terá um caminho livre para desenvolver armas nucleares e muitas das restrições que o impediam serão suspensas. Esse é o resultado quando se deseja um acordo a todo custo", disse Netanyahu através de comunicado divulgado antes do início de uma reunião com o ministro de Relações Exteriores da Holanda, Bert Koenders.
"Fizeram grandes concessões em todos os temas que deviam impedir que o Irã consiga armas nucleares. Adicionalmente, o Irã receberá bilhões de dólares para alimentar sua máquina terrorista e sua agressividade e expansão pelo Oriente Médio", completou.
O primeiro-ministro reiterou que um acordo não pode ser evitado quando os negociadores estão "dispostos a fazer concessões a quem, inclusive durante as conversas, gritava 'morte aos EUA'", disse Netanyahu, em referência a uma manifestação realizada em Teerã no último fim de semana e na qual foram queimadas bandeiras americanas e israelenses.
Sobre os próximos passos de seu governo, Netanyahu disse que seu "compromisso" de impedir que o Irã tenha capacidade de fabricar armas nucleares "segue em vigor".
O ex-ministro das Relações Exteriores de Israel Avigdor Lieberman classificou a jornada de hoje como "um dia negro para todo mundo livre". Já o ministro de Ciência e Tecnologia, Dani Danon, afirmou que o pacto entre o Grupo 5+1 e o Irã é como "dar um fósforo a um piromaníaco".
A vice-ministra de Relações Exteriores, Tzipi Hotovely, afirmou que o acordo significa "uma capitulação de proporções históricas perante o eixo do mal dirigido pelo Irã".
"As consequências deste acordo no futuro próximo são muito graves. Irã recebeu um respaldo para continuar expandindo (a influência) de seus aliados terroristas pela região", acrescentou Tzipi em comunicado.
G1 

Postar um comentário

0 Comentários