Fabricante diz que gastou R$ 700 mil para promover remédio ineficaz contra a Covid-19

 

Em depoimento à CPI da Covid nesta quarta-feira (11), o representante da Vitamedic Jailton Batista confirmou que a farmacêutica obteve lucros expressivos durante a pandemia de Covid com a venda de ivermectina. O remédio é um antiparasitário usado no tratamento de sarna, verme e piolho, e não tem eficácia contra o coronavírus. Senadores defenderam indenizações para pacientes que usaram o remédio.

O diretor também admitiu que a farmacêutica financiou, a um valor de R$ 717 mil, o anúncio de uma campanha publicitária que defendia tratamentos ineficazes para a Covid. O manifesto exaltava, entre outros medicamentos, o uso da ivermectina. A empresa, admitiu Jailton, jamais fez estudos para atestar se há ou não eficácia do remédio no combate à Covid.

De acordo com Batista, a Vitamedic teve os seguintes saltos com a pandemia:

  • faturamento total de R$ 200 milhões, em 2019, para R$ 540 milhões em 2020, início da pandemia. Até julho deste ano, a empresa faturou R$ 300 milhões
  • faturamento com a venda de ivermectina passou de R$ 15,7 milhões em 2019 para quase R$ 470 milhões em 2020
  • crescimento acima de 600% na venda de ivermectina
  • faturamento com a venda de vitamina D de quase 500 mil em 2019 para R$ 2,3 milhões em 2020

O diretor da farmacêutica também admitiu uma variação acima de 60% no preço da ivermectina.

Segundo ele, o aumento foi motivado por causa da variação cambial e do aumento de custos internos provocados pela própria pandemia. Batista ressaltou ainda que não vendeu o medicamento diretamente ao governo federal ou ao Ministério da Saúde, e disse que fez negócios principalmente com municípios.

Indenizações

Ao longo da sessão, senadores criticaram a propagação da ivermectina para o combate ao coronavírus e a falsa percepção de imunidade criada após o uso do medicamento. Houve a defesa de que pacientes e familiares de vítimas cobrem indenizações por terem sido “ludibriados” por falsos tratamentos enquanto empresas lucravam com a venda.

“A empresa que o senhor dirige trabalhou para o povo brasileiro ser ludibriado, enganado”, afirmou o senador Otto Alencar (PSD-BA) ao diretor.

Para o relator Renan Calheiros (MDB-AL), é “inevitável” que a Vitamedic e outras farmacêuticas respondam pela morte de infectados por coronavírus.

“Alguém, de uma forma ou de outra, vai ter que pagar esses custos. Como ela [a Vitamedic] não pode dimensionar qual foi o impacto e a evolução da venda e da produção do remédio em função da propaganda do presidente e da sua família, vai sobrar para a indústria o pagamento dessas óbvias indenizações. Esta terá que ser uma consequência da Comissão Parlamentar de Inquérito”, afirmou Calheiros.

O relator afirmou ainda que será “item obrigatório” no parecer final da CPI uma recomendação de que as defensorias públicas atendam familiares de vítimas e pessoas com sequelas pelo coronavírus em função da prescrição de “medicamentos inúteis e sem eficácia”.

De acordo com o blog do Valdo Cruz, a cúpula da CPI da Covid decidiu propor o indiciamento do presidente Jair Bolsonaro pelos crimes de charlatanismo, curandeirismo e propaganda enganosa.

O senador Fabiano Contarato (Cidadania-ES) também defendeu uma punição à Vitamedic e propôs o bloqueio de recursos da farmacêutica.

“Em que pesem as tentativas do depoente de informar que apenas atendeu a demanda do mercado, essas compras são claras violações ao interesse público e às normas que regem as compras públicas no país. Eu sugiro que seja feito um pedido cautelar à Justiça Federal para que bloqueie recursos suficientes pra garantir o ressarcimento aos cofres públicos enquanto durar essa investigação”, afirmou.

Vídeos de Bolsonaro

Durante o depoimento, vídeos do presidente Jair Bolsonaro defendendo e estimulando o uso da ivermectina contra a Covid-19 foram exibidos pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL). O relator da CPI questionou o quanto “a propaganda” ajudou na elevação dos negócios da Vitamedic.

“Nós não temos como medir”, respondeu Batista. Ele também afirmou que se o presidente da República divulgou o medicamento, o fez “espontaneamente”. “Nós não tivemos qualquer produção nisso”, afirmou.

A propaganda financiada pela Vitamedic foi feita pelo grupo Médicos pela Vida. A associação teve uma reunião no ano passado com Bolsonaro no Palácio do Planalto, na qual defendeu o uso de remédios que se provaram ineficazes para o coronavírus.