Em Portugal, falar ʽbrasileiroʼ na escola é preocupação para os pais e problema para alunos


 Falar “brasileiro” virou moda há muito tempo entre as crianças portuguesas, que imitam youtubers famosos. Mas os alunos têm sofrido represálias dos professores nas escolas de Portugal, onde há cada vez mais relatos de discriminação, xenofobia e conflitos em salas de aula devido à intolerância com a diversidade da língua portuguesa. Especialistas reconhecem o problema e o secretário de Estado Adjunto e da Educação, João Costa, defendeu em artigo a variedade como forma de tornar o sistema educacional mais inclusivo.

Os exemplos de discriminação são muitos, começam no ensino básico e acompanham a trajetória do aluno brasileiro até a universidade. Recentemente, uma aluna brasileira diz ter sido repreendida em sala de aula porque não pronunciou uma consoante com a entonação que um professor achava correta. Segundo ela, o docente disse que a brasileira poderia responder quando aprendesse a falar. A direção da escola pública soube do caso.

Fora de sala de aula, as crianças portuguesas se esforçam para falar como os brasileiros. Uma parte da sociedade portuguesa incentiva como algo lúdico. A filha de uma portuguesa gosta tanto dos canais brasileiros que imita o sotaque de uma amiga brasileira do trabalho da mãe, enquanto anda pela casa filmando tudo com um celular. Já uma outra parte dos pais portugueses procura psicólogos e terapeutas para estancar o que consideram um “problema”.

Manuel (8) e Henrique (12), filhos de Gonçalo Castro, assistem Felipe Neto em casa em Lisboa | Gonçalo Castro

Pai de Joana, uma menina de quatro anos, o carioca Luiz Bittencourt (os nomes foram alterados para evitar represálias) diz que as crianças e mesmo amigos do trabalho adoram imitar brasileiros, mas de maneira folclórica. Quando é para valer, no trabalho ou na escola, a variedade é rechaçada, dizem.

— A filha de uma conhecida se esforça para falar como a gente, passa o dia todo vendo os vídeos no YouTube. O pai briga dizendo que ela não é brasileira e ela chora. Eles adoram imitar o que dizemos, até mesmo comigo no trabalho. Mas na escola tem que ter a pronúncia correta. Os educadores aos poucos vão moldando os alunos “brasileiros” para entrarem no ritmo, tipo: pronomes depois do verbo, como amo-te  — disse Bittencourt.

A própria Joana, que emigrou muito nova com os pais para Portugal, corrige a família em casa, reproduzindo o que aprende no colégio. As diferenças, segundo o pai, ganharam relevo e ele e a mulher têm o hábito de usar expressões mais comuns em Portugal para facilitar a compreensão em sala de aula e minimizar confusões.

— Ela deve ouvir na escola e corrige a gente. E também tem o sarcasmo de ficar dizendo “tô falando brasilêro”. Semana passada, ela disse que entrou um amiguinho novo na escola e que fala brasileiro — completou Bittencourt.

Rodrigo Nascimento também adotou a estratégia da massificação das expressões e pronúncia no convívio familiar. Ele é pai de quatro filhos, três deles com a mulher, Susana, e todos em idade escolar, sendo que a mais velha cursou o 12º e último ano recentemente. Dois deles são gêmeos e trilharam caminhos distintos na alfabetização, que começou justamente quando o casal brasileiro decidiu viver em Portugal. Medidas paliativas foram tomadas em casa para facilitar a adaptação ao “novo idioma” na escola.

— Tive preocupação, porque o Gabriel falava mesmo igual a gente fala no Brasil, teve dificuldade na escola devido ao conflito em casa do português “brasileiro” x português de Portugal. Enquanto o André adotou logo o português de Portugal para falar e escrever.  Tentamos usar pouco o gerúndio para repetir em casa a forma como a professora fala na sala de aula, mas a escola nunca recomendou que fizéssemos isso — contou Nascimento, que lembra do sofrimento da mais velha para se adequar às resenhas dos livros de autores consagrados, como Fernando Pessoa:

— Tinha que ser no português daqui (de Portugal). Acho que deveria ter uma flexibilidade com alunos estrangeiros. Gera conflito na cabeça deles entre escola, amigos e casa. (Os professores) dizem que estão falando errado.

Ao longo deste ano, diversas reportagens foram feitas sobre o tema, como a de O GLOBO, publicada em abril. A mais recente delas, no “Diário de Notícias”, causou polêmica nas redes sociais, onde avistaram um tom de xenofobia. Um exagero, na opinião de alguns especialistas. 

De qualquer maneira, Luccas Neto, o principal personagem da celeuma recente, anunciou que passará a dublar seus vídeos para o português…. de Portugal. O que evidencia a cisão.

Presidente do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, professora e investigadora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Margarita Correia milita há mais de uma década contra a segregação linguística. Escreve colunas no “DN”, pelas quais diz ser atacada por ser defensora do “brasileiro”. Ela diz que está ciente dos problemas discriminatórios na rede de ensino.

— Parte dos professores tem desconhecimento sobre o que fazer. Não explicar o que é uma língua pluricêntrica é uma falha do Estado, porque são confrontados todos os dias com crianças que não falam português europeu. E é exigida a norma europeia. Eu acredito que possa haver xenofobia, mas também existe a falta de informação, porque não há bibliografia, que ainda está sendo produzida — contou Correia.

Para colaborar com a formação de uma bibliografia sobre o tema, a própria professora edita a revista eletrônica Palavras em Linha, que sairá no próximo mês com um artigo do secretário de Estado Adjunto e da Educação, João Costa. Intitulado a “Língua pluricêntrica de um canhoto que vos escreve”, o texto faz uma metáfora com quem usa a mão esquerda no ato da escrita para exaltar a diversidade do idioma.

Dividido em cinco pontos e publicado antecipadamente no Facebook de Costa, onde está aberto a todos, inclui o Brasil ao falar de variedade: 

“Por alguma razão que me escapa ou prefiro não explicitar, há quem pense que há o português (o verdadeiro e único) e as variedades faladas no Brasil, em Timor ou nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). É uma espécie de “nós vs. eles” em modo linguístico”.

E o secretário de Estado encerra o artigo com o tópico “A variedade vai à escola”, onde escreve:

“Nas últimas décadas, assistimos em Portugal, felizmente, a uma população cada vez mais diversa nas escolas. São muitas as escolas em que convivem mais de vinte ou trinta línguas maternas. (...) Eu não gostaria de visitar um país, abrir a boca e falar português, língua que desenvolvi e estudei, e ter como respostas: “não fala bem”, “não fala português, fala lusitano”, “não é assim que se diz.” Ia sentir-me de imediato excluído, sem poder fazer muito por mim. Simplesmente porque me dizem que a minha língua não é, afinal, a que eu achava que falava”.

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