Beatriz Azevedo e Moreno Veloso lançam album em homenagem a Clarice Lispector


 O novo álbum de Beatriz Azevedo e Moreno Veloso, “Clarice Clarão”, integra as homenagens ao centenário da escritora Clarice Lispector, celebrado em 2020, e já está nas plataformas de streaming, com selo no Sesc Digital – saiu físico e em LP. É muita beleza num disco só.

Beatriz e Moreno trazem além da música, teatro e poesia, numa sequência de conhecimentos, em sintonia com a obra de Clarice Lispector. A dupla assina a produção musical com composições e performances próprias. O show de lançamento aconteceu no Sesc  Avenida Paulista  e depois Campinas.

O projeto “Clarice Clarão” surgiu de um convite da Princeton University para celebrar os 100 anos da escritora Clarice Lispector, em 2020. À época, Beatriz Azevedo criou o espetáculo “Now Clarice”, interpretando, ao lado de Moreno Veloso, canções originais e trechos da obra de Lispector. Filmado ao vivo, o musical conta com as participações dos músicos Jaques Morelenbaum e Marcelo Costa e estreou em dezembro de 2021 no Sesc TV. As pinturas e desenhos que compõem o visual do álbum e as capas dos singles são assinados pela artista plástica e filósofa Marcia Tiburi.

“Eu quero, espero / transformar este momento / na arte revelo / eu sou Hélio e me Tarsilo /Monaliso e Botticello” versos da introdução da canção “Canto”, para Caetano Veloso – que acompanhou tudo de perto, pai de Moreno e assina o texto do encarte do disco –, “é uma aventura de tratar nomes próprios, de grandes artistas, como se fossem verbos pronominais. Sempre na primeira pessoa do singular. A melodia que Moreno trouxe para as palavras de Beatriz fazem a passagem dessa estranheza para uma sutil doçura de modo tão equilibrado que a gente fica logo sabendo que um Agora clariciano não poderia começar de outro modo”.

Os artistas conversaram com o MaisPB pelo telefone – sobre o disco, a vida, a arte e muitas sacadas – leiam e saibam mais sobre Clarice Lispector e sua importância

MaisPB – Como você se sente homenageando Clarice Lispector, uma escritora que não morre nunca?

Beatriz Azevedo – É exatamente essa sensação. Quando recebi o convite da Princeton University, eu tive que retomar as minhas leituras, mergulhar na vida e obra da Clarice, para ficar mais próxima do século XXI e criar um espetáculo celebrando os cem da trajetória da escritora. O que eu senti foi exatamente isso – ela está mais viva do que nunca e fala diretamente com os leitores contemporâneos do século XXI. Clarice não é uma autora datada, ela fala da profundidade da alma, da alegria de viver. Clarice não fica nos clichês. Como atriz, compositora e cantora me senti mais próxima dela,  Clarice foi uma parceira de criação durante os meses da pandemia, que a gente não podia mais sair na rua sem máscaras – o planeta inseguro, a crise climática, nesse estado em que estávamos, a Clarice foi o guia de luz, e por essa luz, demos o título de “Clarice Clarão” ao nosso disco, porque foi ela foi o clarão no meio da escuridão da pandemia.

MaisPB – A canção que abre o disco, “Canto”, é romanesca, é uma resposta da arte, é moderna fala em Monaliso, Botticello,  os rios Nilo e Tejo e presta homenagem a Hélio Eichbauer. Vamos falar dessa canção?

Beatriz Azevedo – Essa composição “Canto”, é minha primeira parceria com Moreno Veloso e temos a maior alegria por isso. Para mim, tem um significado imenso e Moreno é muito carinhoso quando fala da canção. Ele fez uma turnê na Europa, com em vários shows em Portugal e abriu os espetáculos, cantando nossa canção. “Canto” nós fizemos logo depois das eleições de 2018, num momento muito difícil: a gente já antevia, já sabia, já sentia os problemas todos que o Brasil tem enfrentando, já nos sentimos frontalmente atacados por esse desgoverno, que está no poder. Então, a gente resolveu dar uma virada, e isso aconteceu pela arte. Moreno mandou uma levada maravilhosa de maculelê, um suingue todo próprio, uma melodia linda e eu escrevi esse poema que fala disso tudo – “Eu quero, espero, transformar esse momento. Eu queria transformar esse momento. De onde vinha a minha força? Da arte, eu revelo, sou Hélio, me Tarcilo, Monasilo e Botticello. É uma espécie de manifesto para os artistas brasileiros.

MaisPB – E a homenagem ao Hélio?

Beatriz Azevedo – Sim, o Hélio Eichbauer, que seria como “um segundo pai” de Moreno, que foi casado com Dedé Veloso. E tem o Hélio Oiticica, artista que marcou a Tropicália e o deus Hélio, o deus Sol, a força solar. Quando eu digo que eu sou esses hélios artistas, eu sou o sol com essa força da arte. A gente pode transformar o momento político e nos transformamos sem nenhuma limitação de gênero, de raça, de classe social. O moreno que é homem, quando canta ele pode ser Tarcila e pode ser a Monalisa, sem problemas de gênero. E eu como mulher posso virar um pintor renascentista, como o italiano Botticelli (1445-1510), e também para incluir o violoncelo, que Jaques  Morenlenbaum toca no nosso trabalho, eu chamei de “Botticello”. No final da canção, eu sou o Nilo e o Tejo, para invocar a força da natureza desses dois rios imensos, que são importantíssimos para a humanidade. É preciso defender a natureza, que foi outra vítima desse desgoverno, que liberou o desmatamento na Amazônia. Não investiu nos órgãos do meio ambiente. Ao buscar a natureza, termino falando de amor, amor pessoal e social por todas as pessoas e pra gente conseguir sonhar, a gente canta.

MaisPB – A atriz pede Bis, Beatriz?

Beatriz Azevedo – A canção é para mostrar minha primeira profissão, conheço na pele o bis da atriz.. trabalhei muitos anos como atriz com José Celso, no Teatro Oficina, em São Paulo, com Aderbal Freire Filho, Celso Nunes, Marco Aurélio. Dirigi e contracenei com grandes atores e atrizes, uma delas Maria Alice Vergueiro, (já falecida) e com Lucélia Santos. A canção Bis, (terceira faixa do disco) é um jeito poético,  de traduzir a arte da atuação, que por um triz é flor de luz, e a gente faz o jogo de palavras com a flor de lis, que Djavan já cantou tão bem. Uma atriz no palco por um triz é flor de luz, o que ela desabrocha é luz. Essa beleza, da flor e da luz, o fascínio que as atrizes exercem, as grandes atrizes brasileiras. Quando eu era criança queria ver tudo da atriz Marlene” Dietrich. Essa canção é uma homenagem a essa arte tão difícil e tão delicada, que é a atuação no palco.

MaisPB – Sua voz é parecida com a de Moreno e isso tornou o disco mais bonito, com as vozes coesas. Estou certo?

Beatriz Azevedo – Está certíssimo. Moreno e eu fomos nos descobrindo nos ensaios, nas cantorias. Fizemos uma live para o Sesc São Paulo. As nossas vozes timbram super bem. Eu já tive vários parceiros e artistas convidados meus shows, atores, atrizes, músicos e todos cantam, mas nunca em minha trajetória me senti tão bem com um parceiro, como Moreno. A gente só sentiu na prática que as nossas vozes vão muito bem juntas. Quando eu cantava sozinha, achava minha voz muito grave. Os agudos do Moreno são muito bonitos. Até ouvindo o Caetano, Moreno, Tom e Zeca, todos cantam muito bem, mas se você reparar a voz de Moreno, tem um brilho no agudo. Isso é uma coisa única, vem no DNA. Eu tenho uma alegria particular para contar: no final da live, Moreno ainda estava na sala de casa, guardando o violão e tocou o celular, era a mãe, Dedé Veloso, por quem eu tenho maior carinho e admiração, como tenho por Caetano Veloso, o maior poeta da música braseiro. Dedé por ser artista, por ter feito teatro com Luiz Antônio Martinez Corrêa, que é irmão do José Celso, por ela ser atriz e mulher como eu. Então, Dedé disse ao telefone, que adorou a live da gente, que devíamos cantar mais juntos. É muito axê, uma benção da Dedé Veloso. Eu só tenho a agradecer meus parceiros. Sou amiga e fã deles.

MaisPB – Eu falei a Moreno, que achei a canção “Circo”, parecida com um clássico dos anos 50…

Beatriz Azevedo – Essa canção, “Circo”, foi uma das primeiras da minha vida, quando eu era bem jovem. Eu fiz letra e música. “Circo” tem uma coisa lírica e delicada, tem uma harmonia, uma linha do baixo que vai caminhando, tem saltos de circo mesmo, melódicos, como se fosse um trapezista no ar. É uma música refinada. Muitas pessoas costumam gostar e eu fico muito feliz com isso.

MaisPB – A presença de Jaques Morelenbaum no disco foi e é fundamental?

Beatriz Azevedo – Total. Jaques Morelenbaum é mais que fundamental, no disco “Clarice Clarão”. Ele participou de milhares de discos, está desde o século XX com Jobim, trabalhou com Ryuichi Sakamoto no Japão, Caetano Veloso, Gal Costa. Um músico da maior grandeza, arranjador, violoncelista, compositor, parceiro nosso, de palco, gravação e show. Eu tenho o maior respeito pela música dele. Quando o convidei ele gostou, topou e ressaltou a importância de Clarice Lispector. O violoncelo é o instrumento que mais se parece com a voz humana, no sentido de estar na mesma altura, que alcança a voz da gente. A presença do violoncelo ajuda até nas imagens poéticas. Era isso que a gente queria e ele nos ajudou muito.

MaisPB – E a participação de Maria Bethânia recitando Clarice?

Beatriz Azevedo – A Maria Bethânia, nós temos a maior alegria dela ser convidada especial, nesse projeto que celebra Clarice Lispector. Antes de aceitar o convite, ela já fazia parte do “Clarice Clarão” sem saber. A voz dela ecoa no disco. Quando eu comecei a pesquisa selecionando textos da obra de Clarice Lispector, vendo filmes e, claro, assisti coisas antigas e tudo chegava a Maria Bethânia. Bethânia desde os anos 60, 70 já trabalhava com a obra de Clarice Lispector, ela estava junto Fauzi Arap, criando espetáculos de música e teatro em que ela interpretava os textos de Clarice. Era um nome certo para nosso disco. Essa família Veloso já estava conectada com a obra de Clarice desde o início. Bethânia simplesmente arrebenta. Sou muito grata

MaisPB – Quem é Beatriz Azevedo?

Beatriz Azevedo – Não sei se eu sei e não sei se alguém sabe. Vou sendo uma mulher contemporânea, nascida no Brasil, que acredita que a arte tem um lugar essencial para a existência humana, gosto de interferir na vida política e cultural do Brasil e do mundo, acredito que a cultura brasileira é única: já morei em Barcelona e em Paris, mas a nossa cultura ultrapassa fronteiras. Sou uma mulher de vida ativa, otimista, esperançosa, eu só faço o que acredito. Sinto-me feliz de cantar e declamar poemas de autores brasileiros. Adoro os animais. Sou a metamorfose ambulante do Raul Seixas, sou a transformação permanente do Tabu Totem, como diz Oswald de Andrade, no manifesto antropófago. É dele a frase: “a gente escreve o que ouve, nunca o que houve”, a gente vai muito de ouvido na vida, ouvindo os povos originários. Eu sou uma compositora.

MORENO VELOSO

MaisPB – Como surgiu esse projeto do disco e DVD, com Beatriz Azevedo, em homenagem à escritora Clarice Lispector?

Moreno Veloso – A gente já tinha trabalhado antes, ela já tinha me convidado para participar dos shows dela e nos demos muito bem no palco. E também compusemos uma música juntos, logo no início da pandemia, que se chama “Canto”, que abre o disco “Clarice Clarão”.

MaisPB – “Canto” é uma canção linda e as vozes de vocês se parecem?

Moreno Veloso – É verdade, a gente tem essa afinidade também. E a Beatriz, além de atriz e cantora, é uma escritora, estudante de literatura e escreve muito bem. Ela estava se preparando para comemorar o centenário de Clarice Lispector, que é uma de nossas heroínas, e me convidou para fazer parte das homenagens ao trabalho de Clarice e a gente fez bonito. Nos juntamos para discutir os roteiros, ler os textos, convidamos o Jaquinho Morelenbaum e o Marcelo Costa e começamos a ensaiar.

MaisPB – Esse projeto, seria um show ao vivo?

Moreno Veloso – Sim, seria lá em Princeton University, nos Estados Unidos, porque Marilia Librandi, que é professora de Literatura lá, é brasileira e estava programando uma homenagem a Clarice e tinha convidado a gente para fazer esse show lá, aí veio a pandemia e ficou impossível ir. O pessoal de Princeton pediu para a gente gravar em vídeo o nosso show e mandar para eles, para ser mostrado na ocasião. Ia ter também uma conversa, com vários professores (online) sobre a Clarice. Gravamos e mandamos.

MaisPB – Mas o resultado ficou muito bom…

Moreno Veloso – Sim, nós gostamos muito do resultado, acabou que transformamos num DVD e num disco, que ficou muito bem gravado, dentro de um estúdio. O próprio vídeo foi gravado no estúdio. A gravação é excelente. Foi um dia só de gravação, como se fosse um show ao vivo e depois da edição, eu fiquei muito feliz e a Beatriz também e a gente quer mostrar para as pessoas.

MaisPB – A letra de “Canto” que abre o disco, é sua?

Moreno Veloso – Não, a letra é de Beatriz, a música é minha. Eu fiz o ritmo, a batida e a melodia.

MaisPB – Quando vocês cantam eu sou Hélio, é uma homenagem a Hélio Eichbauer, não é? E ela acrescenta “Me Tarcilo e Monasilo” é genial, né?

Moreno Veloso – Sim, ele (Hélio) tinha falecido recentemente e era uma referência pra gente, para as artes, e também as artes cênicas. A Beatriz transformou esses nomes em verbos, “eu me Tarcilo, Monaliso” e depois ela diz: “eu sou Nilo e sou o Tejo”

MaisPB – E a canção “Bis”, a segunda faixa?

Moreno Veloso – É dela e de um amigo. É linda essa canção.

MaisPB – Quando foi a primeira vez que você ouviu a canção “Deusa do Amor” (terceira faixa do disco) que você gravou no disco Máquina de Escrever Música – Moreno + 2 de 2000?

Moreno Veloso – Eu ouvi na rua, no carnaval da Bahia, em 1991. Estava descendo a avenida Chile e o Olodum estava vindo e cantando essa canção, em direção à Praça Castro Alves, era uma sexta-feira de noite, dia que o Bloco Olodum sai. Foi muito impactante, muito lindo esse momento, eu fiquei apaixonado por essa música, não só eu, muita gente

MaisPB – Pensou logo em gravar?

Moreno Veloso – Não, depois eu vi um show do Olodum, que meu pai (Caetano Veloso) participou e eles cantaram essa música. Quando eu vi meu pai e o Olodum cantando essa canção, eu tive a ideia de fazer essa versão mais romântica.

MaisPB – Seu pai falou no show dos 80 anos, sobre as canções que não são de vocês, “Sozinho” de Peninha e “Deusa do Amor”, do Olodum, mas que vocês cantam tanto que parecem os autores...

Moreno Veloso – É, ele falou alguma coisa que tem músicas que não são nossas e que transformam a nossa vida, que a gente se apropria delas e elas ficam em nossa vida para sempre. Ele estava fazendo um paralelo com “Sozinho e Deusa do Amor” e essas músicas, as pessoas acham que são nossas, muita gente confunde. O Olodum continua cantando essa música nos shows, é uma canção muito querida, todo mundo conhece, principalmente na Bahia. Eu errei a letra, na primeira frase – tudo fica mais bonito quando você está por perto, não é frase original da música, inclusive ela nem cabe na melodia – a frase original é: “tudo fica mais bonito você estando perto”. Foi sem querer que eu botei o “quando”, ao invés de “você estando”. Eu não fiz de propósito, mas ficou bonita, mais coloquial, mais simples “quando você está por perto” é mais fácil de entender, do que você estando perto.

MaisPB – A canção “Circo”, a quarta faixa, parece uma música antiga?

Moreno Veloso – É verdade, nesse disco, é a música que tem a cara clássica, bem-acabada, perfeita. Eu adoro essa música e ela tem mesmo essa cara de música mais antiga, como você está falando.

MaisPB – Como foi o convite para sua tia, Maria Bethânia, declamar dois poemas de Clarice Lispector, no disco de vocês?

Moreno Veloso – Eu e Beatriz, a gente sabe que minha tia estuda Clarice Lispector há muito tempo, sabe de cor vários trechos e a gente ia fazer algumas leituras, então, quando o ia ser ao vivo lá em Princeton University, e ia ser gravado, a Beatriz teve a ideia de convidar minha tia para ler pequenas coisas, o que ela quisesse. Meu pai também sabe vários poemas de cor, eles gostam muito da obra Clarice, de longas datas.

MaisPB – E Bethânia aceitou na hora, né?

Moreno Veloso – Sim. Gravou a voz e mandou pra gente. Ficou muito bonito.

MaisPB – Em seguida a leitura dos poemas, vocês cantam “Clarice Clarão” que dá nome ao disco…

Moreno Veloso – Justamente. É a única canção inédita que foi composta para o evento, para homenagear Clarice. A Beatriz compôs sozinha e eu achei maravilhosa e a gente gravou.

MaisPB – Esse disco não é apenas um CD, ele é um show, né?

Moreno Veloso – Sim, é um show, ele foi gravado como show ao vivo, você tem razão.

MaisPB – Muito oportuna a quinta faixa “Um Canto de Afoxé Para o Bloco do Ilé”, que você compôs quando era garoto. Fala aí pra gente?

Moreno Veloso – Eu fiz em parceria com meu pai, é bom porque não só ela traz meu pai para perto do projeto (Clarice Clarão) e é bom também porque ela equilibra o disco, com a questão do Olodum da “Deusa do Amor e o Ilé”. É uma música que é muito querida, eu era criança ainda, eu tinha oito anos. É uma letra muito simples, mas eu gosto muito.

MaisPB – E os desenhos da capa e do encarte do disco?

Moreno Veloso. São lindos, de Marcia Tiburi, ela estava participando da movimentação política e foi muito ameaçada, ela e a família e acabou se retirando do país. Está na França e de lá mandou esses desenhos. A capa é linda.

MaisPB – E o Jaques Morelenbaum, foi você que o chamou?

Moreno Veloso – É impressionante. Foi a Beatriz que pegou o telefone e chamou, e ele aceitou na hora, ensaiamos e gravamos. Foi muito bom trabalhar com ele de novo e quero trabalhar mais ainda.

MaisPB – E essa canção de Torquato Neto na décima faixa, “Três da Madrugada” é arrebatadora?

Moreno Veloso – Dele com Carlos Pinto, um compositor pernambucano. Essa música saiu apenas num compacto, que minha madrinha Gal (Costa) gravou e veio acompanhada do livro de Torquato, que não saiu em nenhum disco. A gravação é da Gal cantando com Gilberto Gil ao violão. A única gravação que existe é essa. Não saiu em nenhum disco de Gal, nem do Gil, mas está na Internet.

MaisPB – Como você lembrou dessa canção?

Moreno Veloso – Eu lembrei dela por causa da pandemia, a coisa de não sair de casa, a cidade vazia, ninguém andava na rua, a cidade abandonada e essa canção voltou a minha cabeça e pensei em tocar de novo e a gente gravou nesse projeto, que tem muito a ver com a poesia de Torquato.

MaisPB – Legal você ter gravado “Escapulário”, que é de seu pai e o Oswald de Andrade…

Moreno Veloso – Ele fez de propósito como se fosse um samba enredo.

MaisPB – Vamos falar da Donzela que se casou?

Moreno Veloso – A gente estava no meio da turnê europeia de “Ofertório”, na passagem do som, eu e Tom, estávamos tocando “How Beautiful Could A Being Be” e outro samba de roda, aí comecei cantar essa música, inesperadamente, a donzela surgiu no meio do som e nós a adoramos e tocamos várias vezes no final dos shows de “Ofertório”.

MaisPB – A Donzela vai entrar no disco novo de Moreno?

Moreno Veloso – Eu estou gravando um disco novo e essa música estava programada para fazer parte, mas minha tia gostou e deverá gravar. Se isso não acontecer, aí eu gravo.

MaisPB – Como é que você vê o trabalho dos irmãos Zeca e Tom?

Moreno Veloso – Eu sou muito fã deles, adoro o que eles fazem. Eu já conhecia um pouco do trabalho dentro de casa, antes deles começarem a tornar público. Eu e meu pai estávamos há muito tempo querendo uma chance, para eles publicarem suas músicas, suas composições, suas vozes, o jeito de compor e tocar, bem particular. Adoro eles.

MaisPB – Como você vê seu pai com 80 anos?

Moreno Veloso – Ele tem muita energia, de produzir, de fazer as coisas, de trabalhar. A energia ajuda muito a gente a atravessar a vida, de uma forma saudável. Ele já tem essa genética da família, que é muito longeva e misturada e isso, essa força criativa. Isso é muito forte nele. Essa mistura é impressionante. Uma pessoa com a idade do meu pai está ativo desse jeito, engajado, forte e firme, artisticamente, com a voz que ele tem. Eu sou feliz de fazer parte dessa família, porque são maravilhosos, ainda por cima têm saúde. Sou feliz por tudo isso.

“Canto”

Autor: Beatriz Azevedo e Moreno Veloso
Voz: Beatriz Azevedo e Moreno Veloso
Pinturas criadas para o projeto: Márcia Tiburi
Arte da capa: Nilton Bergamini
Gravado por Gustavo Krebs e Jerônimo Orselli no estúdio Biscoito Fino
Mixado por Jerônimo Orselli
Masterizado por Florencia Saravia
Assistência de produção: Laura Francis
Produção executiva: Acrobeat Produções
Produção musical: Beatriz Azevedo e Moreno Veloso
Direção artística: Beatriz Azevedo

Beatriz Azevedo é poeta, compositora, multiartista brasileira. Visiting Scholar na New York University de 2022 a 2023, Doutora em Artes da Cena pela UNICAMP e Mestre em Literatura Comparada pela USP. Pesquisadora de Pós-Doutorado Unicamp / Fapesp. Estudou música no Mannes College of Music em Nova York e dramaturgia na Sala Beckett em Barcelona. Gravou os discos A.G.O.R.A, AntroPOPhagia ao vivo em Nova York, Alegria, lançados pela Biscoito Fino no Brasil e pela Discmedi na Europa; e Bum bum do poeta, pela gravadora Natasha Records no Brasil e pela Nippon Crown no Japão. Suas composições foram cantadas por Adriana Calcanhotto, Matheus Nachtergaele, Moreno Veloso, Tom Zé, Zelia Duncan e Zé Celso Martinez Correa, entre outros. Criou parcerias com Augusto de Campos, Cristovão Bastos, Hilda Hilst, Moreno Veloso, Oswald de Andrade, Raul Bopp, Vinicius Cantuária e Zélia Duncan. Escreveu os livros Abracadabra (selo Demônio Negro), Antropofagia Palimpsesto Selvagem (Cosac Naify), Idade da Pedra (Iluminuras), entre outros.

Beatriz Azevedo apresentou-se no Lincoln Center e no Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York, além de participar de diversos festivais internacionais: Womex (Espanha), Nublu Jazz Festival (Nova York), Celebrate Brazil at Lincoln Center (Nova York), CMJ Music Marathon & Film Festival (Nova York), Femmes du Monde (Paris), Mirada Festival Ibero-Americano (Brasil), Popkomm Festival (Berlim), Dunya Festival (Rotterdam), Copa da Cultura (Berlim), Art Anthropophagie Aujourd’hui (Paris), Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), Verizon Music Festival (Nova York), entre outros. https://www.beatrizazevedo.com/

Moreno Veloso é cantor, compositor e produtor musical. Estudou física na faculdade, mas atua como músico no Brasil e no exterior. Primeiro filho de Caetano Veloso e da atriz Dedé Gadelha Veloso. Desde criança, Moreno começou a compor canções em parceria com o pai; “Um canto de afoxé para o bloco do Ilê”, foi registrada por Caetano no LP “Cores, nomes” em 1982. Em 1997, outra composição de Moreno, “How beautiful could a being be” foi registrada por Caetano no LP “Livro”. Sua música “Sertão”, também em parceria com o pai, foi gravada por Gal Costa.

Em 2000 gravou seu primeiro álbum “Máquina de Escrever Música, ao lado de Domenico Lancelotti e Kassin, pelo selo Rock it!. Em 2011 atuou como produtor no álbum “Recanto”, de Gal Costa, sua madrinha. Em 2014 lançou o álbum Coisa Boa, seu primeiro disco solo de estúdio, que teve início enquanto ainda estava vivendo na Bahia. A presença da terra natal é evidente em muitas composições de Moreno.

Foi convidado novamente por Gal Costa para a produção de seu disco, “Estratosférica” em 2015. Participou do show antroPOPhagia de Beatriz Azevedo em 2016, em apresentações no Oi Futuro no Rio de Janeiro, no Sesc Palladium em Belo Horizonte, e na Caixa Cultural em Brasília. No final de 2018, depois das eleições presidenciais no Brasil, compôs junto com Beatriz Azevedo a canção “Canto”, que está no disco A.G.O.R.A., lançado pela Biscoito Fino em 2019. Ao lado de seu pai e seus irmãos Zeca e Tom Veloso realizou nos últimos anos o espetáculo “Ofertório”. Está nos projetos Agora Clarice e Clarice Clarão, ao lado de Beatriz Azevedo.

Confira o clipe: 

MaisPB


BORGES NETO LUCENA INFORMA